Better pray to stay alive

Prólogo

“Quanto mais vivo, mais percebo que a cada dia que passa eu só desejo a morte. Luto cada vez menos contra a vida, porém sem coragem de por um ponto final em tudo. Todo o meu tormento é saber que tudo o que eu faça ou tente fazer dará errado e nunca terei aprovação de ninguém. Acho que nem o diabo me quer no inferno…”

- É eu realmente não imaginava o que estava por vir!

Capítulo I

            Como normalmente faço todos os dias após levantar, escovo os dentes e tomo café. Diariamente caindo por cima das coisas de tanto sono. Já me acostumei com a insônia. Não que eu queira, mas não há que possa ser feito.

            Eu ainda tinha alguns minutos antes de ir parar a escola, então resolvi subir para reorganizar o material e escutar o noticiário da manhã. Não que eu sempre fizesse isso, mas hoje em especial, eu o fiz.

            Aparentemente estava tudo normal. O Natal chegando e os noticiários falavam sobre o aumento das vendas e outras notícias relacionadas aos feriados de fim de ano. Quando ia desligar a televisão, uma cosia me chamou atenção. Por saber que jornalistas não passam emoções ao apresentar um telejornal, tampouco aparentavam ter medo, eu resolvi deixar a TV ligada mais um pouco. Com um olhar apavorado, porém vazio, a apresentadora disse:

- “Cientistas temem nova experiência para vacina contra o vírus HIV. Os efeitos causados nos animais foram… devastadores… e eles temem o teste em seres humanos.”

            A apresentadora encerrou o programa com o mesmo olhar apavorado. Fiquei pensando ainda, o que poderia ser tão “devastador” que apavorasse tanto aquela mulher.

- Chega, você tem que ir pra escola! - falei olhando pro meu reflexo no espelho.

            De todas as pessoas no mundo a única que não me julgava era minha amiga Liv.

Liv era o tipo de pessoa que se daria muito bem com todos se tentasse alguma interação social. Não o faz por alegar ter medo das pessoas.

            Nós nos conhecemos desde pequenas e fomos vizinhas durante oito anos, até o pai dela ser promovida e a família dela se mudar para uma casa maior. Os pais de Liv eram meio desligados da realidade. Seu pai criava jogos para uma empresa e a mãe era viciada em Senhor dos Anéis (por alguma interferência divina, Liv não foi batizada de Arwen). Acho que era devido a esse desligamento de seus pais, que Liv era do jeito que era. O cabelo mudava de cor a cada semana, calça jeans surrada e sempre babylooks com estampas provocativas (a de hoje era “Knights In Satan’s Service”). Liv não julgava ninguém, porque odiava os olhares tortos que as patricinhas da nossa escola lançavam a ela, cada vez que ela se aproximava.

            Quando cheguei à escola – dez minutos atrasada, por sinal -, Liv me esperava em um dos bancos que ficavam no pátio da escola.

- E aí, ‘weirdo’?! – eu disse enquanto a cutucava.

- Droga, Tracy! Você deveria usar no pescoço um daqueles sinos que gatos usam pra anunciar que eles estão chegando. – disse Liv enquanto recolhia do chão os livros que deixara cair por causa do susto.

- Mas assim te dar sustos perderia toda a graça. Por que tá aqui fora ainda, chegou atrasada também?

- Não. Eu não levo eras tentando sair da cama, e você sabe disso. O professor faltou. – Liv disse a última frase com satisfação no rosto.

            Liv era do tipo nerd, amava todas as aulas. Com exceção de uma: Física, com o professor Patrick. Na verdade ela também não tinha nenhum problema com a matéria, ao contrário de mim, mas sim com o professor. Patrick era o cara mais arrogante-metido-a-besta que alguém pode conhecer, e adorava arrumar confusão comigo e com a Liv. Perdi a conta de quantas vezes levei detenção por causa de chilique do cara.

- Estranho ele faltar. Ele nunca falta. – eu disse enquanto encarava uma folha no chão.

- Ficou preocupada com o Patty, é Tracy?! Sabia que você o desejava no fundo. – disse Liv rindo e me cutucando com o cotovelo.

- Só porque ele é um babaca, eu tenho que deixar de notar que ele é bonito?

- SABIA!!! VOCÊ SEMPRE OLHO ESTRANHO PRA…

            Tentei calar Liv o mais rápido possível. Patrick tinha acabado de estacionar o carro perto da onde estávamos sentadas.

- Eu juro que da próxima vez eu arranco tua língua fora! – sussurei pra Liv, com medo que o professor escutasse.

- Eu também te amo, Tracy! - disse Liv rindo.

            Patrick desceu do carro inexpressivo. Aparentemente não tinha prestado atenção aos berros de Liv. Foi caminhando rápido em direção a porta da escola, sem nos notar. Normalmente ele teria nos mandado entrar. Meia hora depois, ele saiu da sala do diretor e voltou em direção ao carro para ir embora. Quando ele terminou de manobrar o carro, parou ao nosso lado e disse:

- Hoje vocês se livraram de mim. Mas não precisa ficar com saudades Tracy, vou repor a aula amanhã.

            E saiu depressa com o carro.

- Tray, eu acho que seu amor é correspondido! – disse Liv fingindo um suspiro enquan to eu dava um soco nela.

- Você não percebeu o quão estranho foi isso? O cara nunca falta, dae hoje ele vem, fica meia hora na sala do diretor e vai embora cheio de pressa…

- Vai ver ele ia comprar o anel de noivado e…

- Para de idiotice Liv, tô falando sério! Alguma coisa tá muito errada escuta o que eu tô te falando.

Capítulo II    

            O restante daquele dia foi bem normal, em comparação ao que aconteceu pela manhã. As aulas correram normalmente, alguns professores já estavam nos amedrontando sobre as provas seguintes ao feriado e outros contando estórias sobre Papai Noel e Rudolph em sala de aula, o que eu achei um tanto infantil pra nossa turma, eu estava no 3º ano do Ensino Médio.

            No final da tarde peguei minhas coisas e fui pra casa com a Liv, ela passava boa parte do tempo lá em casa, já que meus pais trabalhavam o dia todo. Ficamos até tarde discutindo os ocorridos daquele dia até pegarmos no sono.

- AAAAAAAI!!! Liv, você quer olhar aonde pisa?! Quase me arrancou um pedaço. – Berrei enquanto levantava do colchonete estirado no chão do meu quarto.

            Meu quarto era um tanto quanto escuro, e não era a primeira vez que a Liv dormia lá em casa e acordava me pisando no caminho pro banheiro. Sentei-me no chão e dei impulso pra levantar, até que senti uma coisa gosmenta no chão. Aposto que minha mãe tinha deixado o cachorro entrar de novo com pena dele dormir no quintal, e ele com medo veio se esconder no meu quarto. Eu com certeza iria reclamar isso com a minha mãe. Não que eu não gostasse de animais, mas meu cachorro babava tudo e deixava meu quarto cheirando a carpete mofado.

            Levantei e fui acender a luz do meu quarto. Tropicando por cima das coisas ainda, bati na porta do banheiro pra saber se a Liv ainda tava lá dentro.

- Liv, tá tudo bem aí? – perguntei brincando.

- Tray não entra, eu não to me sentindo bem.

            Pelo visto eu tinha reclamado do cachorro a toa, Liv era a dona da gosma no chão do meu quarto. Voltei pro quarto pra limpar o possível vômito no chão, mas não encontrei vômito, e sim sangue, rios de sangue. Como se alguém tivesse drenado uma pessoa no meu quarto.

- Liv, abre essa porta agora! – berrei enquanto corria de volta pro banheiro.

            A porta estava destrancada, e quando entrei vi uma Liv, quase verde e vomitando muito. Liv tinha pânico de sangue, mas não era a dona daquele no chão do meu quarto.

- Liv, pelo amor de Deus, o que você sentindo, de quem é todo aquele sangue?

- Tray, me promete que não vai surtar…

- Liv fala logo de quem é aquele sangue! – comecei a berrar impaciente.

- Aquele sangue é do Loki…

            Mal terminei de ouvir o que ela dizia e saí correndo pra procurar o Loki, que era o cachorro de estimação da minha família. Loki era um pastor alemão com idade já avançada, mas ainda muito dócil e brincalhão. Quando voltei ao meu quarto, o corpo dele não estava lá. Mas havia alguns pedaços do que eu presumi que fossem uma orelha e uma pata. Comecei a chorar desesperadamente e corri até o rastro de sangue que dava na janela. A única coisa que encontrei foi a cabeça de Loki no quintal da minha casa. Liv saiu do banheiro e foi até o quintal atrás de mim.

- Tray, você tem que ligar pra sua mãe…

- DROGA LIV, O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI? MEU CACHORRO FOI DRENADO NO MEU QUARTO E APARENTEMENTE ALGUMA COISA SE ALIMENTOU DELE E SÓ DEIXOU A CABEÇA… - berrei a plenos pulmões enquanto Liv tentava me tirar do quintal.

- Tray, por favor, você tem que se acalmar. Vem, vamos pra cozinha, e você liga pra sua mãe contando o que aconteceu. – disse Liv com a voz calma, o que me irritou mais ainda.

- Liv como você consegue sentir tanta calma, quando uma coisa monstruosa dessas acaba de acontecer bem debaixo do nosso nariz?

- Eu sei Tray. Eu sei que é horrível, mas eu preciso manter a calma pra poder te acalmar, não adianta nós duas ficarmos desesperadas. Por favor, liga pra tua mãe.

            Depois de muita insistência dela, entrei em casa e fui pegar o telefone pra ligar pro trabalho da minha mãe.

- É melhor eu ligar, você tá tremendo. – disse Liv tomando o telefone da minha mão.

            Desabei na mesa da cozinha enquanto Liv contava pra minha mãe o acontecido. Pelas respostas de Liv, minha mãe já deveria estar berrando a essa altura do campeonato, e provavelmente nem esperou um “tchau” do outro lado da linha pra desligar o telefone e vir correndo pra casa.

            Quando minha mãe chegou em casa e viu o que restou do Loki no nosso quintal, ela ficou paralisada por uns trinta minutos até finalmente dizer pra eu ligar pra polícia num tom de voz quase inaudível.

            Sai do quintal e voltei pra cozinha, peguei o telefone sem fio, me sentei à mesa e tentei discar o número de emergência sem derrubar o telefone no chão. Tentei por vários minutos e o telefone só dava ocupado. Por fim minha mãe achou melhor que fossemos a delegacia prestar queixa do ocorrido pessoalmente, e pegar quem fez aquilo. Liv se ofereceu pra dirigir, e então fomos até a delegacia.

            Ao chegar lá, não tinha ninguém dentro do prédio, nem policiais, nem presos nem ninguém. O estacionamento estava praticamente abandonado e havia muitas capsulas de bala no chão na frente do prédio.

            Caminhamos pelo estacionamento procurando algum policial, mas não havia ninguém lá, só carros que foram abandonados apressadamente por seus donos.

- Liv você pode fazer companhia a Tracy, enquanto eu vou procurar meu marido? – minha mãe continuara com o tom de voz inaudível e sem emoção.

- Não se preocupe Sra. Cooper, eu fico com ela.

            Me senti mal por explorar Liv dessa forma, ela sempre teve muito boa vontade com a minha família, e eu mal conversava com os pais dela. Minha mãe nos deixou na escola e foi no trabalho do meu pai, procurar por ele.

            Descemos no estacionamento, e fomos caminhando devagar até a porta principal da escola. Antes de chegar nos degraus de entrada, escutamos um grito:

- SAIAM DAÍ AGORA, CORRAM PARA A PORTA DOS FUNDOS!

Começamos a correr o mais rápido que podíamos e a única coisa que ouvíamos agora, era o som dos tiros de uma pistola.